19/09/2015 - 07:30
Créditos: Arte CT

Os incêndios criminosos que acinzentaram a cidade verde

O Estado foi responsabilizado pelos incêndios às casas de palha ocorridos nas décadas de 30 e 40

Autor: Mírian Gomes

TERESINA - Não havia descanso. Faltava sossego, sobrava medo e incerteza. A vigilância era constante. O simples ato de dormir poderia custar-lhes a vida. Assim viviam os teresinenses que moravam em casas de palha nas décadas de 30 e 40 do século passado.

Não havia dia, nem hora, nem data certa para ocorrerem os incêndios criminosos. Um momento da história de Teresina onde a higienização social em favor da urbanização era claramente praticada pelo Estado, uma história cheia de situações melindrosas, onde política e interesses pessoais levaram à morte e ao sofrimento de crianças, bebês, gestantes, jovens e idosos, que morriam sob as labaredas e o ‘fumacê’ daquele incauto sofrimento.

Para entender melhor aquela fase cinzenta da cidade verde, é preciso situá-la no contexto regional, nacional e mundial.


Autor: Dino Alves/CT


O boom demográfico

A recém criada capital piauiense atraía pessoas de todos os lugares. A mudança de local da sede da cidade, saindo do Poti Velho para a Vila Nova do Poti, atraiu diversos teresinenses e piauienses ao local, fato que já causava incômodo à ‘sociedade’ teresinense, representada pelas famílias mais abastadas, a chamada elite, verdadeiros financiadores da mudança da capital, de Oeiras para Teresina.


Jornalista Toni Rodrigues Foto: Gabriel Torres/CT


No começo do século XX Teresina era uma cidade jovem. Havia se solidificado na segunda metade do século XIX, quando, em 1853, passou a ser capital. “E a partir do começo do século XX, com a história da borracha sendo extraída na região amazônica, a cidade era um entreposto, um lugar de passagem”, explicou o jornalista Toni Rodrigues, autor do livro Cinturão de Fogo, obra que traz relatos e documentos sobre aquela época. “Vinha muita gente da região sudeste, os chamados soldados da borracha, em direção à região norte. E aqui, mais ou menos a metade do caminho, eles entenderam que era um lugar muito bacana, muito bonito. Muitos se afeiçoavam e ficavam por aqui mesmo”, explicou.


Arte: CT


Assim Teresina foi se tornando um lugar cada vez mais populoso e violento, com pessoas que não tinham onde morar. Houve uma explosão demográfica. Os recursos da cidade ficaram pequenos e surgiram problemas de natureza sanitária, social, entre outras.

As casas iam sendo construídas desordenadamente em torno do centro administrativo e comercial da cidade, ou seja, em torno das Praças Marechal Deodoro (Praça da Bandeira) e Pedro II, principalmente. Sem critério algum, as casas de palha surgiam, muitas delas completamente coladas umas nas outras, obstruindo passagens. Somado a esse fator havia também os cabarés da Paissandu.

“Naquela época ali era o local de encontro de homens de todas as classes. De políticos a viajantes, todos iam em busca das meninas da Paissandu. Então era também um local em que ocorriam muitas brigas”, explicou Toni.


Casas de palha persistiam na década de 60 Foto: Divulgação/Internet


O que fazer?

As primeiras providências que as autoridades da época pensaram acabaram sendo influenciadas pelo momento político do país. “Pelo modelo de governo, ditadura, eles pensaram logo na violência. Combater a violência com violência. Então vamos trazer um militar pra resolver a parada. Trouxeram o [Evilásio] Vilanova. O governo recomendou o Vilanova e ele já começou batendo no povo”, explicou Toni, que também é radialista.

 

Estado Novo e urbanização

Na conjuntura política nacional, o país vivia sob a ditadura militar instaurada por Getúlio Vargas. No chamado Estado Novo não havia mais espaço para desorganização urbana. Assim como fez no setor industrial, Vargas também exigia a modernização das capitais dos estados brasileiros. A urbanização tinha que ser feita, fosse como fosse.


Arte: CT


A contratação de Vilanova dá início à fase da história teresinense onde começa o suplício da população.

 

É proibido falar “Fogo!”

O novo secretário organizou a estrutura da polícia, deu celeridade às ações, era bem visto pelo interventor Leonidas Melo. Havia porém uma outra face dessa história que custou a vida de milhares. Vilanova se utilizava de violência extrema, sobretudo contra os mais humildes. Sem chance de defesa, a população vivia sob a sombra das chamas e do medo.

Os incêndios eram cada vez mais recorrentes e aconteciam numa intensidade ímpar durante o conhecido B R O BRO, ou seja, quando o clima estava ainda mais seco e o calor ainda mais forte.


Arte: CT


O ápice e as reações

A situação foi ficando intolerável. Já não era possível fazer vistas grossas ao que estava acontecendo. Setores da sociedade e profissionais diversos passaram a se manifestar. Um deles foi o médico Agenor de Almeida. Por diversas vezes ele fez visitas marcadas às prisões. Ao chegar lá nada havia de errado. Evilásio armava. Levava os presos torturados para outro local. Em seus lugares colocava homens sadios para simular tranquilidade e bons cuidados aos presos.

Mesmo escondendo de todas as maneiras as atrocidades que cometia na cadeia de Teresina, Evilásio não esperava a visita surpresa de Agenor de Almeida, que encontrou Manoel Gomes Feitosa em situação de tortura. Este e mais outro caso resultaram em inquérito contra o Estado.


Toni Rodrigues entrevista o médico Agenor de Almeida, 2006  Foto: Roberta


É culpa do poder público

O julgamento sobre os incêndios criminosos e as torturas a populares teve o seu final. A sentença do Tribunal de Segurança Nacional: a polícia militar do Estado foi responsabilizada. O Estado foi condenado. O Poder Público era o total culpado. Não houve nomes, mas todos já sabiam quem estava por trás de daqueles incidentes: Evilásio Vilanova.

Esse fato nos revela a importância da posição do estado em relação às pessoas, à população, ao bem estar da sociedade como um todo. Porém, naquela época não havia diálogo. “A diferença é grande. Naquele tempo era uma ditadura, o povo não tinha voz nem vez. Imagine quantas vitimas anônimas desses incêndios dos anos 40? Quantas pessoas morreram? Não tem nem estatística!”, enfatizou Toni.

“Pra você ter uma ideia, existem dados de algumas pessoas que foram feridas porque, de um modo ou de outro, escapou um documento aqui outro ali, mas quantas mil pessoas morreram? Quantas centenas de pessoas morreram sem que se saiba quantas são? Quantas se suicidaram? Quantas enlouqueceram?”


Diversos livros abordam a temática dos incêndios criminosos das décadas de 30 e 40 Montagem: CT


Personagens enlouquecidos

De acordo com Toni, o professor Clidenor de Freitas Santos revelou durante uma entrevista concedida ao jornalista em 95, era geralmente nesses períodos de crises e tragédias ocorre o aumento de problemas mentais diversos. Esse momento da história de Teresina foi um dos que mais foram registradas pessoas que perderam o juízo ou se suicidaram.

Essa característica foi registrada no livro Palha de Arroz, de Fontes Ibiapina, que traz célebres personagens marcados pelos incêndios, famílias desestruturadas e pessoas enlouquecidas.

 

Vozes sem censura

Se àquela época não se podia falar sobre os abusos de autoridade do poder público, atualmente vivemos sob as benesses da democracia.


Arte: CT


Cientes de seus direitos, os moradores da Avenida Boa Esperança fazem uso do que está garantido na lei. Eles lutam para permanecer em suas casas e expõem diversas razões para que seus lares não sejam desapropriados. Razões essas que já foram expostas em duas audiências públicas que envolveram Ministério Público e Prefeitura de Teresina. Uma das justificativas dos moradores é que o rio não oferece risco aos moradores, mesmo quando há enchentes. Será mesmo? É o que vamos conferir em nossa próxima matéria.


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