12/02/2014 - 16:15
Créditos: Gabriel Tôrres/CT

Marinalva Santana conversa sobre homofobia e quebra de paradigmas

A militante do movimento LGBT concedeu entrevista especial ao Capital Teresina

Autor: Jéssica Monteiro

Créditos: Gabriel Tôrres/CT Marinalva Santana Marinalva Santana

Marinalva Santana é fundadora e coordenadora do Grupo Matizes. Militante do movimento LGBT, Marinalva conversou com a equipe do Capital Teresina e falou sobre a entidade, sobre preconceitos e sobre a quebra de paradigmas. Confira a seguir a entrevista completa

Como surgiu o grupo Matizes?

O Matizes completa agora em maio 12 anos e foi fundado porque havia esse vazio de uma entidade em defesa dos direitos de gays, lésbicas, bissexuais e travestis. Um grupo de amigos que se conhecia já de outras militâncias, de outras histórias de vida, se reuniu e decidiu fundar o Matizes no dia 18 de maio de 2002. Que foi, aqui em Teresina, a primeira entidade de defesa de LGBT formalizada e que está em atuação até hoje. Hoje nós já temos pelo menos 12 entidades LGBT no Piauí.

O que representa o grupo Matizes hoje na sociedade?

É uma entidade que tem suscitado, que tem levantado o debate não só sobre os direitos LGBT’s, mas aos direitos humanos. Não restringimos a nossa luta à luta dos LGBT’s. Um exemplo disso é esse seminário que a gente tá realizando. Nós poderíamos olhar só para o próprio umbigo e dizer ‘não, nós vamos fazer um seminário pra discutir os direitos de gays, lésbicas, bissexuais e travestis’. Mas nós temos a compreensão bem nítida de que a opressão contra uma pessoa negra também nos atinge, a opressão contra uma pessoa deficiente também nos atinge. Elas têm a mesma raiz: a dificuldade da pessoa em conviver com a diversidade humana. Então a gente tem sempre esse olhar plural para os direitos. Nós costumamos dizer que nós somos uma entidade de direitos humanos e que foca mais sua luta na defesa dos direitos LGBT. Mas o Matizes sempre teve esse olhar plural sobre o combate à discriminação. Uma entidade que é vigilante, que é atuante, na defesa dos direitos humanos como um todo, na sua plenitude, mas que tem o recorte de representar as indignações, as revindicações dos LGBT

Créditos: Gabriel Tôrres/CT

Qual foi a maior conquista contra a homofobia no Piauí?

A maior conquistar foi exatamente o fato de termos conseguindo fincar o debate com a sociedade. Quando o Matizes surgiu em 2002 a discussão sobre o tema da diversidade sexual era uma discussão esquecida, era uma discussão quase inexistente. Hoje esse é um debate que está nas universidades, que está na sociedade, está nas famílias. Então eu acho que essa é a nossa maior conquista, a gente ter conseguindo levar e manter o debate junto à sociedade e junto à instituições como a universidade, e à própria mídia. Eu acho que essa é a nossa maior conquista. Agora, do ponto de vista de exemplificação de avanço nós temos vários. Por exemplo, o Piauí foi o primeiro estado em que se conseguiu através de uma decisão liminar o direito de um contribuinte gay ou lésbica colocar seu companheiro ou companheira como dependente na declaração do Imposto de Renda. Saiu daqui o primeiro questionamento, por exemplo, contra a proibição, imposta pelo Ministério da Saúde aos homens gays e bissexuais, de não poder doar sangue. Nós fomos o primeiro estado a realizar de forma coletiva uma solenidade pública, no prédio do poder judiciário, pra celebrar o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Em outras cidades já tinham ocorrido solenidades, cerimonias para casamento, mas era solenidade individual, organizada pelos próprios interessados. E a nossa foi a primeira pública com cinco casais de lésbicas. 

Qual a importância que você dá ao beijo gay na televisão brasileira?

Acho importante porque quebra paradigmas. Mas acho também que houve uma supervalorização; acho que existem outras coisas que a própria novela trouxe. Como por exemplo, no final, o pai, que era homofobico e rejeitava o filho, dizer que que aceitava e amava o filho do jeito que ele é. Mas um beijo, sem sombra de dúvida, pelo valor simbólico que ele tem, sendo exibido em horário nobre no canal que, em geral, tem a maior audiência do país, isso é importante. É um avanço significativo importante.   

Créditos: Gabriel Tôrres

A veiculação de um beijo gay feminino pela televisão brasileira é diferente de um beijo gay masculino?

Numa sociedade preconceituosa como a nossa, homens causam estranheza, causam um debate as vezes até acirrado. Mas, no caso específico desse beijos gay que a rede Globo mostrou, veja que foi um beijo um pouco tímido quando comparado ao beijo mostrado pela SBt, entre duas mulheres. Mas, em se tratando de rede Globo, se tratando de horário nobre, dada a audiência que tem, e o próprio histórico da rede Globo, uma emissora conservadora e resistente à mudança, acho que essa conjunção de fatores faz com que tenha tido essa amplificação do debate, da repercussão acerca do beijo.

Qual o próximo desafio do grupo Matizes?

Nós temos como meta conseguir chegar mais perto, de forma mais efetiva, das famílias, principalmente as famílias de gays, lésbicas, bissexuais e travestis. É uma missão árdua, é uma missão difícil, porque você esbarra em certas questões como a individualidade e a privacidade. Mas a gente conseguido. Entrevistas como essa, pesquisas quem têm sido feitas nas universidades contribuem pra que esse debate amplifique e consiga fazer a ponte com as famílias. Isso é fundamental, porque os gays, lésbicas, bissexuais e travestis, infelizmente, constituem o único grupo socialmente excluído que é discriminado e sofre retaliação no próprio seio familiar. Porque se a gente pegar um negro, por exemplo, que é excluído historicamente na nossa sociedade, uma pessoa negra, de regra, não vai sofrer discriminação dentro de casa, no seio familiar. Quando ela relata um caso de discriminação, de bullying racista, na escola, os pais geralmente vão à escola tomar satisfações e exigir uma providência. Com as pessoas com deficiência também. Agora, LBT’s, infelizmente, a família é a primeira porta de entrada do preconceito. Muitas famílias que expulsam seus filhos gays, filhas lésbicas, sua filhas travestis de casa. São as famílias que as vezes praticam violência também psicológica, levando muitos adolescentes inclusive a cometer suicídio. São as próprias famílias que as vezes praticam a violência física contra gays, contra lésbicas e contra travestis.